Sunday, September 29, 2019

Nomads!

I was expecting to arrive in Zurich and see a large community of expats - people far away from home, trying to build a new life in a new country, either longing for return, or happy to consider this their new home - but always feeling some attachment to their original country, striving to keep at least some connections with their "identity".

What I found instead was a large community of nomads - people that don't seem to belong anywhere.

Before 30, many of them have lived in three, four or more countries. Most of their adult life was spent "away", and they don't feel any attachment to "home" anymore.
Frequently the answer to "where are you from?" is met with a "what do you mean?" or "it depends...". Some don't care about voting, and have only a vague interest on what's happening on their original countries, going there once or twice a year - usually for Christmas.
If they eventually change countries again in the future, chances are it won't be to the one where they were born and their family is in - the fact it is "home" isn't factored at all in the decision about "where to live".


I found this deeply disturbing (still do). In my mind, nomads were people that were forced to move - nobody able to choose would want to stay for long in that situation. And there would always be a special attachment to the place where one was born, where most of one's family still reside.
Here, privileged people - a financial and intellectual elite - seem to accept it willingly without any reserve.

This forced me to realize how much my opinions were distorted by a limited world view, based on a particular relation with my family and country. While here, I found several good reasons for not wanting to "go back":

- Broken families
- Weak national identities
- Poverty
- Repressive and/or authoritarian political environments.

Add to this the fact that being away for long weakens ties to the point where people "feel like a foreigner in switzerland, and a tourist in my country": friends move on, family gets used to remoteness, countries change, a mindset of "being away" is created - the result is a sense of not belonging, of not having (and in some cases not needing) roots.


Maybe this rootlessness is positive - they are the true "citizens of the world", able and prepared to live in any place - while I continue to be bound and limited by my locality, which will always pull me to the same place.


Leaving

As I'm buying the first sets of plane tickets, I'm struggling with my emotions.

A seemingly simple question is making me rethink again how wise was my decision:

- Will I be living in Zurich and coming home on the weekends, or will I be living in Lisbon and going to work in Zurich during the week?

Slowly, the question stops being about buying return tickets, and becomes an in-depth analysis of my choices:

- Why am I doing this?
- What is waiting for me on the other side?
- Will I succeed?
- How will this change me?
- How will this change my family?
- Will I ever regret it?
- Is this really a good idea?

While pondering, I try to find the answers in my children's reactions:

The younger is excited with the prospect of change. At 7 years old, he seems either very unconscious or very brave (probably both). For him, we should all go and try it out - to hell the consequences. Having two houses, living in a different country, seeing different things - what an adventure! What's there to lose?

At 9, the older one is afraid of the change - and especially the uncertainty.
Are we all going? When? What are we going to meet? What language will we be talking? What will happen to friends? How is school there? How are people?
She seems to have more to lose (or be more conscious about it).


Since they don't seem to be helping me with my questions, I turn to my wife. She always seems to know better...

She is not sure if she wants all the family to go, but she is pretty sure this is too good of an opportunity for me to waste. If it doesn't work... I can always come back. She will be taking care of things in Portugal. For her, the decision is very simple.

Her certainty about the topic, her willingness and capability to take care of the family while I'm not home gives me the insurance I need to realize that this is a controlled risk and that I can focus on what's coming, instead of worrying (too much) about what I'm leaving behind. I decide to buy return tickets from Zurich.


Looking back to this time almost two years later, there are a few answers that are now clear to me - others are more complicated. It has certainly been worth it, and it has changed me deeply - to prove it, the change in language in which I write my experiences here.

Nowadays I don't have to be afraid about not knowing where is "home" - that has been the main lesson from this adventure. And I now know the right answer to the logistic problem: buy one way tickets - it makes it simpler and cheaper to change plan(e)s at the last minute.

Wednesday, January 2, 2013

Fotografia - ser diferente

Durante a refeição alguém tropeça no copo de plástico pousado em cima da mesa.

Durante a curta queda, o meu inconsciente decide rapidamente se devo ou não amortecer a queda com o pé (decide que não vale a pena).
Entretanto o consciente começa a deambular:

Curioso - ainda tinha tempo de amortecer a queda com o pé. Isto significa que a decisão inconsciente foi tomada em quanto tempo?

Bem - assumindo que a mesa está a um metro e vinte do chão, temos que a aceleração gravítica a dividir por dois, vez o tempo ao quadrado é igual a um ponto dois (desprezando o atrito).

Assumindo dez metros por segundo quadrado para a aceleração, temos que t é igual à raiz quadrada de zero ponto vinte e quatro - aproximadamente meio segundo de queda.

Ainda deveria contabilizar o tempo que o copo demorou a chegar à borda da mesa - sabendo que o copo se moveu uns 30 centímetros sobre a mesa, preciso de saber a velocidade aproximadamente a que o cotovelo se deslocava quando embateu nele. Preciso também de saber aproximadamente a frequência de amostragem do sistema visual. Tenho ainda de calcular o tempo que a perna demoraria a percorrer os 50 centímetros até ao sítio onde o copo caíu - e assim poderia calcular a velocidade de process...


- MIGUEEEEEEEEL! Estas aí?

Ela olha para mim com o ar irónico de quem sabe perfeitamente onde eu estava - e de quem se prepara para me dar um pequeno gozo. No tempo que demoro a voltar à realidade, ela prossegue


- Estavas a ouvir o que eu dizia? Em que é que estavas a pensar?

Como é que vou explicar-lhe que estava com curiosidade de tentar perceber a velocidade de processamento do subconsciente - assim poderia tentar comparar com a velocidade de processamento do consciente... ou de um computador... tantas coisas interessantes - mas como explicar-lhe?
Decido dar a resposta standard, enquanto tento reconstituir o fragmento de conversa que decorreu enquanto me distraía a fazer as contas.

- Não estava a pensar em nada de especial. Estavas a falar de... da tua mãe?

- Da minha mãe? Estiveste quase, mas a minha mãe já foi há uns dez minutos- agora estava a falar da tua. Apanha lá o copo antes que molhe o chão todo.

Enquanto me baixo para apanhar o copo, reparo no padrão que o líquido faz no chão, e lá vou eu outra vez:

Curioso, o padrão que o líquido fez. Que informação é que dará para extrair deste padrão? Será que dá para perceber a altura que o copo caíu? A orientação que tinha quando bateu no chão? Que efeito terá a viscosidade do líquido sobre este padrão? Que percentagem do líquido ainda estará dentro do copo? Qual a distribuição radial? E qual a densidade de líquido em função da distância radial? E se tomar em consideraç....

MIGUEEEEEEL! Onde é que estás outra vez?


Como explicar-lhe?

Friday, November 16, 2012

Pãozinho sem sal

Em 2010 foi introduzida uma lei que limita o teor de sal no pão.


Os principais argumentos que tenho ouvido a favor desta lei são os seguintes (podem haver outros):

1) Argumento categórico: o estado tem o dever de se preocupar e de trabalhar no sentido de melhorar a saúde dos seus cidadãos.
2) Argumento utilitário: o estado gasta muito dinheiro devido a doenças relacionadas com o consumo excessivo de sal e por isso deve trabalhar no sentido de reduzir esses custos.



O argumento utilitário é muito desinteressante - parece-me uma má razão para criar uma lei deste género mais que não seja porque está fundado em "factos" difíceis de comprovar (e porque o argumento utilitário é frequentemente muito pouco humanista).
Para se fazer as contas ao custo para o estado do excesso de sal não basta contabilizar os custos da saúde - seria preciso calcular os custos/ganhos decorrentes das mudanças nos hábitos de consumo devido a pessoas que passam a comer outros produtos. Se calhar em vez de comer pão as pessoas passariam a consumir outros produtos que lhes fariam ainda pior!

Numa objecção mais cínica e nada politicamente correcta, poder-se-ia argumentar (tal como o fez a Philip Morris no infame estudo de 2001) que o facto de as pessoas morrerem mais cedo devido a complicações relacionadas com o excesso de sal pouparia bastante dinheiro em reformas e pensões da segurança social.



Para mim o cerne da questão está no argumento categórico - o estado deve trabalhar activamente para melhorar a saúde dos cidadãos, mesmo que o faça contra a vontade desses mesmos cidadãos?

Responder que sim é defender uma visão de um estado paternalista e moralista, que acha que as pessoas não são capazes de tomar as decisões mais correctas por si próprias. Para este estado, as pessoas não só têm que ser guiadas e ensinadas, como as possibilidade de terem comportamentos "errados" deve ser controlado e proibido - mesmo que apenas afecte as pessoas em causa, sem prejuízo de terceiros.

Na minha visão libertária, o estado está a ultrapassar os seus deveres, privando os cidadãos de uma escolha - que pode ser consciente ou não. Para mim seria bem mais interessante um modelo em que o teor de sal teria que ser indicado ao consumidor (eventualmente com um código de cores, para simplificação).
O carácter repressivo seria assim substituído por uma medida de carácter informativo, o que estaria mais de acordo com uma visão de um estado que ensina e forma, e não de um estado que proíbe e reprime.
Há que dizer que o artigo do público do primeiro link menciona outros países que têm conseguido resultados com base em recomendações e campanhas - o que parece apontar para algum sucesso da aproximação formativa versus repressiva.

Esta lei pode parecer bastante irrelevante e insignificante, mas segundo o próprio artigo do público os seus autores criaram-na com o objectivo de mais tarde alargá-la a outros produtos. A continuar este caminho, mais cedo ou mais tarde há de haver um produto que é proibido e que não é assim tão irrelevante.

E já agora, porquê ficarmo-nos pelo sal? Eventualmente alguém se haverá de lembrar que o tabaco e o álcool fazem mal à saúde - afinal, ideologicamente não existe diferença entre a lei do pãozinho sem sal e a lei seca dos estados unidos. Evidentemente que os impactos de ambas as leis são completamente diferentes, mas o princípio moralista que está por trás é idêntico.

Finalmente, não deixa de ser curioso constatar que aparentemente (segundo o último parágrafo do artigo do público) é mais fácil e barato proibir do que prevenir e informar.



Natalidade e ambiente

A natalidade em Portugal tem estado nos noticiários - aparentemente nunca esteve tão baixa e continua a cair.


Este facto é visto regra geral como algo muito negativo, sendo que um dos principais argumentos apresentados é utilitarista - se a natalidade cai, o estado social não vai aguentar. Vamos começar a ser todos idosos sem ninguém para tomar conta de nós e para trabalhar para pagar as nossas pensões.



Para lá do egoísmo deste argumento (certamente existem outros bem mais aceitáveis), existe nele uma premissa que me preocupa: o argumento parte do princípio de que para manter o estado social é necessário um aumento constante da população.


Um aumento constante da população é algo que me assusta. Nada cresce constantemente ad infinitum: todas as populações acabam por atingir um factor limitativo - espaço, energia, alimentação, etc. Quando este limite é atingido, uma de duas coisas acontecem:

- Uma estabilização suave em torno de um ponto de equilíbrio
- Uma rotura catastrófica de todo o sistema


De acordo com esta visão, a estabilização da população é algo positivo. Tem conotações negativas - envelhecimento da população, problemas sociais, etc, mas é algo que teria sempre que acontecer - mais cedo ou mais tarde teríamos que atingir o limite ambiental - e mais vale que seja antes de ultrapassarmos (demasiadamente) o ponto de equilíbrio.
Que esta estabilização ocorra sem necessidade de introduzir medidas artificiais (tal como aconteceu na China com a infame política do filho único) é um bónus (muito) bem vindo.



Há que dizer que existem vários argumentos contra esta ideia. Existe actualmente um grande debate entre "doomers" (pessoas que acreditam que estamos a atingir/já atingimos limites ambientais que põem em causa a nossa sobrevivência) e "cornucopians" (pessoas que acreditam que ainda estamos longe de atingir o limite ambiental, e que eventualmente este nunca será atingido devido à evolução tecnológica e/ou social).

Coloco-me do lado dos doomers (não, não sou um "survivalist"), embora não partilhe a opinião de muitos que dizem que já ultrapassámos o limite ambiental - não sei onde esse limite se encontra e acredito (tal como os cornucopians) que este limite evolui com a sociedade e tecnologia.


Quanto a questões económicas - este é um daqueles casos em que os nossos desejos e boas intenções esbarram com a dura e crua realidade: a sociedade tem que se adaptar ao meio ambiente, porque o ambiente certamente que não se vai adaptar à sociedade.

Thursday, November 1, 2012

Fazer o que se gosta vs gostar do que se faz

Fazer o que se gosta é hedonismo, mimo, egoísmo.

É pensar naquilo que queremos e não naquilo que devemos, nos direitos e não nas obrigações.
É jantar e não levantar a mesa, comer o chocolate e não deitar fora o papel.
É não se fazer aquilo que não se gosta, deixar para os outros aquilo que não quero para mim.

Fazer o que se gosta é caminhar com os olhos postos no destino, perseguir apaixonadamente um sonho - custe o que custar. É saber aquilo que se quer - os fins justificam os meios.

Quando se faz o que se gosta não interessa o que se faz - interessa o que se gosta.






Gostar do que se faz é dever, honra, orgulho.

É pensar naquilo que é preciso e descobrir aquilo que queremos.
É começar uma tarefa por dever e acabar por prazer.
É dar com sacrifício e descobrir a glória da oferta, ir despejar o lixo e descobrir as estrelas.

É encontrar o rumo durante a caminhada, é ir pelo caminho mais bonito em vez do mais curto - porque o que interessa é a viagem. É deixar que os sonhos nos persigam enquanto nos ocupamos com a realidade.



Quando se gosta do que se faz, nada mais interessa.



Fotografia: dormindo com um desconhecido

Na minha empresa existe uma conferência anual que junta milhares de pessoas de todo o mundo em Seattle. As pessoas ficam hospedadas em hotéis, normalmente em quartos de dois.

Tenho sempre muito cuidado a escolher o meu companheiro de quarto - até ao ano passado, em que ele desistiu à última da hora e a organização me designou aleatoriamente um novo companheiro.



Já estou no quarto quando ele entra. É alto e encorpado. Tem um olhar doce e cansado por trás de uns óculos de aspecto frágil.
Acabou de chegar do Senegal - muitas horas de avião em cima. Traz uma mala de viagem de aspecto normal, e veste de uma forma prática e simples, mas com um leve toque a formal - o tipo de roupa que associo a alguém que gosta de cumprir regras.
Cumprimenta-me num bom inglês, atirando-me a mão enorme com um gesto largo e de sorriso aberto.

Começamos a falar sobre o evento - ele acabou de entrar na empresa e nunca participou em nenhum. Depois de lhe explicar a dinâmica da conferência e de lhe dar alguns conselhos, a conversa evolui suavemente para outros tópicos. Falamos dos americanos, dos europeus e dos africanos. Ele começa a fechar os olhos durante a conversa e decido poupá-lo. Ele insiste em tentar conversar - nota-se que é educado - mas o sono está a levar-lhe a melhor e acaba por desistir.
Quando já não aguenta mais levanta-se, vai à casa de banho, volta, pergunta-me para que lado fica o mar, pega num tapete e ajoelha-se no chão a orar. Depois vai deitar-se e adormece.


Nos dias seguintes começa a ficar mais à vontade. Certa amanhã acordo com o resmonear das suas orações. Fico na cama a tentar perceber o que diz, evidentemente sem sucesso.


Numa das noites consigo que a conversa vá para onde quero - a religião.
Ele conta-me alegremente como funciona a religião no Senegal.
Fala-me das diferenças entre o islamismo africano e do médio-oriente. Fala-me do carácter tolerante da religião africana. Conta-me como funcionam as datas religiosas, como é que são vividas pelas pessoas. Como é que cada um segue a religião e como é que cada um a contorna e ajusta ás suas necessidades.
Mostra-me o tapete que usa para orar, explica-me a finalidade das abluções e mostra-me a app que tem no telefone para descobrir Meca .


A certa altura fala-me das mulheres. Diz-me que sai caro casar com mais que uma. Existem regras a seguir - todas as mulheres têm que ser tratadas da mesma forma pelo marido. O homem tem que dormir o mesmo número de noites com cada mulher, e se der uma prenda a uma tem que dar prendas equivalentes às outras. Conta-me que a poligamia não é muito frequente - sobretudo num país pobre como o Senegal.
Pergunta-me o que acho. Respondo-lhe cuidadosamente que não sou contra a poligamia, desde que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens. Ele faz uma cara de surpresa, solta um pequeno uivo e diz-me que há algumas pessoas no país dele que pensam como eu. Di-lo com um ar que eu classificaria de cuidadoso e educado choque. Imagino-o a imaginar uma mulher a casar com vários homens e percebo o uivo.

Aparentemente a minha observação não foi mal recebida, porque a conversa continua. Pergunta-me como é comigo no meu país. Explico-lhe que represento uma minoria agnóstica num país maioritariamente pseudo-cristão - e ele mostra-se mais interessado no cristianismo do que no agnosticismo.

Certo dia enfurece-se ao telefone enquanto fala com a mulher. Ele conta-me que o presidente/rei do Senegal está a tentar mudar a constituição para se poder reeleger após ter cumprido todos os mandatos permitidos constitucionalmente. Fala-me do presidente/rei do país dele com alguma raiva e medo - teme uma guerra civil e arrepende-se de não ter emigrado para Inglaterra. Ele até queria, mas a mulher não estava para aí virada.

Penso no meu próprio país, e nos tiranetes que por cá temos que também mudam constituições com fins eleitoralistas. Penso no que faria se o meu país fosse pelo caminho que ele descreve e constato
que independentemente da língua, religião, cor da pele ou continente onde vivemos, todos temos os mesmos medos e desejos.

No final, mais do que as sessões que assisti ou do tempo que passei com os meus amigos e colegas, lembro-me com algum prazer das conversas que tive com ele. Gostei tanto da experiência que tenciono passar a não escolher o meu companheiro de quarto nos eventos futuros. Só espero continuar a ter sorte com os próximos sorteios.





Thursday, October 11, 2012

Fotografia: olhos mortiços

O rapaz entra no balneário acompanhado do pai, que lhe segura o cotovelo.

Deve ter uns 15 anos, magro. É evidente que sofre de uma paralisia cerebral - o caminhar difícil, pés virados para dentro, joelhos a roçarem-se, mãos num ângulo estranho.


O rapaz senta-se num banco um pouco distante de mim, mas onde o posso ver bem. Decido vestir-me mais devagar, para sentir a dinâmica familiar.

O pai - que deve rondar os 50 - começa a despi-lo, sem palavras. O rapaz vai divagando o olhar pelas paredes brancas, sem qualquer vislumbre de interesse pelo espaço onde se encontra, mas sempre sem encarar o pai que se debruça sobre ele.

Dá para perceber que o pai não está habituado a vestir o filho. Os gestos não são fluidos, o corpo está tenso. Nota-se uma certa irritação nos gestos - talvez mesmo uma certa rispidez. Não há carinho nesta tarefa, apenas algo a desempenhar - um obstáculo a ultrapassar.

A certa altura resmunga. Enganou-se a vestir o fato de banho ao rapaz e agora vai ter que recomeçar a tarefa. O rapaz parece não se importar - continua a obedecer as ordens mudas do pai: levantar o rabo, levantar os braços, levantar as pernas...

Continua impavidamente a varrer o espaço com a cabeça, os olhos mortiços que não se fixam em nada, vazios de interesse.
A certa altura repara em mim a reparar nele (será que percebe que estou a estudá-lo?). Mantenho o olhar fixo nele durante 1 ou 2 segundos e decido desviar os olhos e continuar a vestir-me.


Começo a pensar no que será ser aquele pai desgastado e agastado, que parece ter sido arrastado para aquela tarefa por vontade de outrem. Uma tarefa que podia ser de convívio e de partilha, mas que mais parece ser um castigo.

Tento imaginar como será ter que vestir um adolescente todos os dias. Dar-lhe de comer, olhar por ele... E olhar para o futuro e não ver o dia em que essas tarefas deixam de ser necessárias. Não conseguir ver o dia em que os papéis se invertem e o filho toma conta do pai.
Uma pergunta forma-se na minha cabeça acima de todas as outras: que sonhos terá este pai para esta criança? Que esperanças alimentará?

Começo a tentar imaginar a vida deste pai: quando é que terá sido a primeira vez que soube que ia ter um filho com este problema? Como é que terá recebido a notícia?  Como fará para tomar conta da criança nos dias em que vai trabalhar? Será que lhe lê uma história antes de se deitar? Várias perguntas que gostaria de perguntar para perceber o que separa esta criança das outras.

Tento pôr-me no lugar dele, mas dói-me demais pensar o que seria ter um filho assim. Lembro-me dos medos que senti antes de os meus filhos nascerem - de fazer contas às probabilidades, de jogar com os números. Lembro-me de tentar imaginar como reagiria se algo semelhante me acontecesse - e das difíceis conclusões a que cheguei. Lembro-me do alívio dos resultados dos exames, da felicidade de os ver nascer sãos.


Entretanto o rapaz levanta-se. Tem que ir à casa de banho. O pai leva-o pelo cotovelo e volta sozinho - aparentemente o rapaz é suficientemente independente para fazer a sua higiene pessoal.

Acabo de me vestir e vou-me embora. Pelo caminho começo a analisar-me a mim mesmo. Analiso a minha tentativa de compreender o pai e constato que não tentei fazer o mesmo pelo filho. Tento perceber porquê.
Tento imaginar o que seria ser aquele filho e percebo que não consigo!

Por muito que tente, não consigo imaginar o que será ser aquela criança. Como será que ele vê o mundo? O que é que será que se consegue aperceber? Será que estas perguntas fazem sequer sentido na sua realidade?

Tento fazer a ligação entre os meus princípios e uma vida assim - e também aí falho. Descubro que as minhas regras não fazem sentido perante esta realidade. É como estar num universo diferente com outras leis físicas - nada bate certo. Afinal, como é que posso relacionar princípios como meritocracia, racionalidade ou moral com uma realidade brutal como esta?

Será que os meus princípios são demasiado frágeis para suportar o peso desta realidade? Se calhar por isso é que me sinto desconfortável face a estas pessoas - se calhar é porque elas me fazem ver que as minhas ideias duras e frias talvez não valham tanto quanto eu penso...


Wednesday, October 10, 2012

Encontrar o meu lugar


 
[…]
You're going to fail [to have a great career] because you're not going to do it, because you will have invented a new excuse, any excuse to fail to take action, and this excuse I've heard so many times. "Yes, I would pursue a great career, but I value human relationships more than accomplishment. I want to be a great friend. I want to be a great spouse. I want to be a great parent, and I will not sacrifice them on the altar of great accomplishment."
[...]
But what do you mean? That's what you expect me to say. You really think it's appropriate that you should actually take children and use them as a shield? You know what will happen someday, you ideal parent? The kid will come to you someday and say, "I know what I want to be. I know what I'm going to do with my life."

You are so happy! It's the conversation a parent wants to hear, because your kid's good in math, and you know you're going to like what comes next. Says your kid, "I have decided I want to be a magician. I want to perform magic tricks on the stage."

And what do you say? You say, "Umm ... that's risky, kid. Might fail, kid. Don't make a lot of money at that, kid. You know, I don't know, kid, you should think about that again, kid, you're so good at math, why don't you — "

And the kid interrupts you, and says, "But it is my dream. It is my dream to do this." And what are you going to say? You know what you're going to say? "Look kid. I had a dream once, too, but -- but."

So how are you going to finish the sentence with your "but"? "
... But. I had a dream too, once, kid, but I was afraid to pursue it."

Or, are you going to tell him this:

"I had a dream once, kid... But then you were born!" 
 
Do you really want to use your family, do you really ever want to look at your spouse and your kid and see your jailers? There was something you could have said to your kid when he or she said, "I have a dream." You could have said, looked the kid in the face, and said, "Go for it, kid, just like I did." But you won't be able to say that because you didn't. So you can't.

O discurso é brilhante - acho difícil passar-lhe indiferente - embora as ideias sejam controversas.

A verdade é que nem toda a gente quer ter uma grande carreira. Acho que me sentiria pior comigo mesmo se daqui a alguns anos olhasse para trás e achasse que tinha descurado a família e os amigos em favor de ambições carreiristas, do que se caísse no erro contrário.
Há que dizer que apenas valorizo o trabalho que faço - não a carreira que persigo - e não tenho grandes dificuldades em me auto motivar, pelo que não me custa encontrar a felicidade no trabalho que faço, mesmo que não seja um "grande trabalho".

Mas e se eu substituísse a palavra "carreira" simplesmente por "trabalho"? Aí a análise já fica diferente, porque aí já estaria a falar de algo que valorizo...



Uma vez uma pessoa que respeito muito disse-me:

"Miguel, o que é que está aqui a fazer? Devia estar era a procurar a cura para o cancro!"

Na altura recebi a frase como um elogio. Depois de ir para casa pensar no que significava, comecei a encará-la como uma crítica (tenho a certeza que não era este o sentido que a pessoa lhe queria dar).

A verdade é que frequentemente sinto que podia fazer mais, que estou subaproveitado. A ser verdade, será que é moralmente correcto contentar-me com o que faço em vez de procurar contribuir mais ou de maneira diferente? Será que não devia procurar um lugar onde me adaptasse melhor? Onde as minhas capacidades e potencial pudessem ser melhor aproveitadas? Onde pudesse ter um maior impacto? Isto para não falar na satisfação pessoal de sentir o desafio, o prazer da luta e a importância do resultado do meu trabalho.

Ou será que estou simplesmente a ser presunçoso, ou egoísta? Se calhar o trabalho que faço é tão válido como qualquer outro... Se calhar já estou no sítio onde devo estar... Se calhar há outras maneiras de contribuir que não exijam mudar de emprego, de cidade, de país ou de vida... Que não obriguem toda a minha família a queimar os barcos e a correr atrás da minha sombra, enquanto persigo os meus objectivos. Se calhar posso contentar-me em continuar a procurar o desafio nas pequenas coisas, nos detalhes que me rodeiam - afinal, aparentemente não tenho dificuldade em encontrar encanto e interesse naquilo que me rodeia...

E por falar em sonhos, o que dizer dos sonhos desfeitos da comunidade que me rodeia? O que dizer do impacto sobre avós, tios, filhos, conjugue, que se veriam forçados (pelo menos alguns) a viver a minha vida em vez de poderem viver a deles? Que dizer da estabilidade perdida, laços rasgados, raízes arrancadas - será que tenho o direito de lhes pedir tanto? Pior - será que tenho o direito de lhes impor tanto?

Há que dizer que o momento "but then you were born" me atormenta. Não me imagino a usar a frase num sentido acusatório, mas consigo imaginar-me a ter que usá-la num sentido educativo: se alguma vez quiser incentivar um dos meus filhos a tomar uma decisão semelhante, o que é que lhe vou dizer? Que exemplo é que lhe vou poder mostrar? "Faz o que eu digo, não faças o que eu fiz"? Parece-me o tipo de atitude que costumo criticar nas outras pessoas...

Dantes, tudo se resumia a: o que é que vou querer ver quando daqui a uns anos olhar para o percurso que estou a traçar agora? O que é que vou valorizar? Mais importante ainda - o que é que vou criticar nas escolhas que faço? Que experiências vou desejar ter tido? Que dificuldades vou desejar ter evitado?

Mas agora não! Isto era dantes - agora é diferente. Agora também tenho que pensar: o que é que os meus filhos vão pensar sobre as escolhas que fiz por eles?
 

Voltar a escrever

Hoje lembrei-me de passar por aqui para relembrar o passado. Não sabia se o blog ainda estaria activo, ou se os meus pensamentos estariam perdidos de vez. Depois de 5 anos sem cá vir perguntava-me como soariam os ecos dessas palavras que tinha escrito há tanto tempo.

Fiquei satisfeito com o que li. Senti um misto de orgulho e preocupação por ver o pouco que mudei durante este período. Orgulho pela congruência, preocupação com a estagnação.

Os princípios ainda são os mesmos - o mérito, a moral, os valores do trabalho - talvez um pouco temperados por uma visão menos extremada - mas mesmo assim muito vincada.

Os fins também não mudaram muito - o aprender, o analisar, o hedonismo do trabalho (uma bela expressão para o que muitas pessoas descreveriam como "workoholismo") - a tal falta de ambição agora transformada em algo diferente (um tema a desenvolver mais tarde?). Eventualmente alguns objetivos novos que decorrem da nova realidade.


O meio envolvente - esse mudou completamente. Novas responsabilidades, uma nova visão do mundo a quatro, uma grande perda de liberdade individual, uma mudança radical de estilo de vida. No trabalho uma evolução (relativamente) lenta e gradual, mas que mesmo assim provocou as suas mudanças na minha maneira de estar.
Mesmo o mundo tem mudado - tem mudado mesmo muito e muito depressa. Preocupa-me pensar que o mundo está a mudar muito mais depressa do que eu - mas já estou outra vez a divagar em (possíveis) futuros posts.



Olhando para trás a verdade é que não consigo perceber porque é que parei de escrever, o que de certa maneira acaba por ser coerente, uma vez que também não sei muito bem porque é que comecei.

No entanto sei porque é que estou a pensar voltar a escrever: porque li estes posts de há 5 anos atrás e gostei de os ler. Gostei de recordar as "fotografias" e de me reencontrar nas auto análises. Agora percebo que mais que outra coisa estes posts são ecos para eu escutar mais tarde e perceber a distância que separa o presente do passado.

Olhando para trás tenho pena de não ter recebido mais opiniões - gostei de reler os comentários, sobretudo os mais opinativos e longos. Valorizo o facto de as pessoas se darem ao trabalho de oferecer a sua opinião - tenho pena que não o façam mais vezes.




Tuesday, December 4, 2007

Funcionalismo público - uma fotografia

Hoje tive que ir pagar uma inspecção ao elevador do meu prédio (haveria tanto para escrever sobre esse assunto...).

Depois de receber a carta da companhia de elevadores com os dados sobre a inspecção e o elevador, dirigi-me à junta de freguesia.

Achei que o natural seria pagar na tesouraria - dirigi-me primeiro para lá. Atrás do guichet estava uma senhora que me explicou que não era ali, que eu deveria ir à recepção para resolver o meu problema.A recepção é mesmo ao lado da tesouraria, ao fundo do pequeno corredor que dá directamente para a porta da rua. A recepcionista estava ocupada a atender outra pessoa, pelo que me disse para esperar. Quando tentei esperar no corredor disse-me para não esperar ali, uma vez que a porta automática ficava sempre a abrir e ela "ainda congelava", pelo que fui para dentro de uma outra sala, onde estava uma fila de umas 5 pessoas para serem atendidas em dois guichets, sendo que num deles estava um empregado muito entretido a ler o jornal. Entretanto, quando entrei na sala para esperar, a senhora da tesouraria começou a dizer-me que não era ali, que era na recepção - foi a única vez que a vi realmente a mexer-se. O único problema era que daquela sala eu não via a senhora da recepção, nem ela me via a mim, pelo que eu não sabia quando é que deveria dirigir-me lá de novo.
Bem, depois de o cliente anterior se despachar e eu adivinhar que era a minha vez, sentei-me à frente da senhora da recepção. Ela inteirou-se do meu problema e perguntou-me se eu já tinha ido à terouraria. Quando eu disse que sim, ela foi comigo até à mesma tesouraria onde eu tinha estado, onde após questionada a senhora com quem eu já tinha falado lhe disse que eu teria que ir a outra repartição num edifício perto. Infelizmente eu estava com pressa e por isso não tive tempo para perguntar porque é que ela não me tinha explicado aquilo logo, mas suponho que seja um problema qualquer entra a tesouraria e a recepção...

Quando cheguei à segunda repartição, encontrei de novo uma recepcionista sentada numa secretária situada ao fundo do corredor que dava para a porta. Já informado da ética das recepcionistas constatei que a porta não era automática, pelo que podia esperar no corredor. Ela telefonou para alguém, que eu descobri que era a pessoa que estava na sala ao lado, que entretanto me manda entrar para resolver o problema.
Bem - isto tudo já estava a correr bastante bem, mas o acto verdadeiramente simbólico aconteceu quando me sentei: ao mesmo tempo que me sentei estendi os papéis com a informação sobre o elevador e coloquei-os mais ou menos a meio caminho entre mim e a senhora. Ela manteve as mãos apertadas uma na outra enquanto olhava para mim. Só ao fim de uns segundos percebi, e tive que pegar nos papéis e colocá-los mais perto dela até ela se dignar a apanhá-los. Escusado será dizer que fiquei revoltado com esta atitude. Enquanto ela me perguntava rispidamente e com uma voz prepotente se era a primeira inspecção (descobri depois que as primeiras inspecções dão mais trabalho, porque obrigam a criar uma ficha nova) eu avaliei as minhas opções para aquela situação, e revi as minhas ideias sobre o funcionalismo público:

Basicamente eu sou obrigado a recorrer a esta entidade para resolver o meu problema. A minha única alternativa é ficar sem elevador ou aturar esta prepotência - não posso sequer ameaçar esta pessoa que vou mudar de empresa. No final, acabo por ficar com receio até de fazer uma queixa, uma vez que corro o risco de vir a precisar desta pessoa mais tarde - e como é sabido, na administração pública as pessoas não rodam muito. Mesmo que me queixasse - mesmo que esta pessoa fizesse ainda pior do que fez (ela chegou a dizer: bem, não é por ser uma primeira inspecção que não a vamos fazer, com um ar ligeiramente jocoso!), provavelmente nunca seria despedida por fazer um mau trabalho.

A minha única vingança é pensar que ela vai ter que continuar a trabalhar e suspirar (ela estava constantemente a suspirar, como se lamentasse ainda não ser sexta feira) por trás daquela secretária durante muitos mais anos, eventualmente a aturar muitas pessoas com bem menos paciência que eu.

Sunday, November 18, 2007

Intimidas-me!

Certa vez estava a falar com uma amiga minha. Era uma amiga relativamente recente, mas com quem eu já tinha algum à vontade na altura - uma pessoa reservada e introspectiva.De repente ela vira-se, e em resposta a um dos meus célebres "porquê?" ela responde-me: "porque me intimidas- e bastante!".
Aquilo apanhou-me de surpresa - afinal, intimido as pessoas? eeeeuuuu? E ao ponto de uma pessoa reservada mo dizer na cara?

Pus-me então a pensar em diversos amigos e cheguei à conclusão que se calhar intimidava mais gente - e nunca tinha percebido! Que eu intimidava as pessoas foi algo que me surpreendeu - pensar que nunca o tinha percebido irritou-me bastante (mais uma nota negativa mental para mim próprio).

Hoje incluí esse factor na minha análise das pessoas que me rodeiam. Comecei a tentar perceber que tipo de pessoas é que eu poderei fazer isso. Não mudei o meu comportamento, mas aprendi a (tentar) perceber quando é que acontece, e a (tentar) evitar levar isso a um ponto tal que possa tornar-se desconfortável para o "intimidado". Por outro lado passei a contar com essa possibilidade no meu "arsenal" - por vezes pode ser útil intimidar alguém numa situação (embora seja uma "técnica" que eu não goste de seguir).

Fiquei contente por mo terem dito. Serviu para me pôr no lugar, de forma a que valorizasse melhor a extensão da minha ignorância sobre os outros.

Serviu também para me pôr a pensar: afinal, o que mais é que farei aos outros sem que me aperceba?

Wednesday, November 14, 2007

Aborto: Ordem dos Médicos não muda código deontológico

Ocasionalmente vejo notícias que me chocam tanto que me vejo obrigado a chatear-vos com estes posts políticos.

Esta li-a em dois sítios, com duas perspectivas ligeiramente diferentes. Uma delas está aqui:
http://dn.sapo.pt/2007/10/18/sociedade/pgr_obriga_medicos_a_mudar_codigo_ab.html

e outra aqui:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1310672

Basicamente (segundo a minha leitura) o ministro da saúde pediu à ordem dos médicos para mudar o código deontológico, de forma a que os médicos possam cumprir a lei e efectuar abortos em algumas condições - não só a lei resultante do último referendo, mas também a lei de 1984 que prevê a possibilidade de aborto nos casos de violação, malformações do feto e outras situações excepcionais. Acontece que o código deontológico da ordem dos médicos diz frontalmente que os médicos não podem fazer abortos e a ordem dos médicos não pretende mudar esta situação.

O que acontece é que temos uma lei que permite uma acção, mas por outro lado temos uma organização que consegue efectivamente proibir todas as pessoas que podem cumprir a lei de o fazer - anulando assim a decisão da maioria.
Apesar de todos os defeitos que a democracia tem, é num estado democrático em que vivemos. Tal como eu tive que concordar com a condenação (à luz da lei de então) de algumas ex-grávidas que tinham abortado - mesmo depois de ter votado pela despenalização no primeiro referendo - estou à espera que as pessoas que não concordem com a lei actual não a quebrem - podem não concordar, mas têm que viver com ela.

Existe um segundo ponto no meio disto que parece estar a passar um pouco mais despercebido, mas que acho bastante importante - aparentemente também a objecção de consciência por parte dos médicos está a ser posta em causa.
Aqui já sou de opinião que cada médico deve ser capaz de se recusar a fazer algo com que não concorda. A diferença é que se um médico diz que não faz, posso sempre procurar outro - enquanto que se a ordem dos médicos diz que nenhum médico pode fazer, então não há volta a dar que não passe por uma grávida ir a um país estrangeiro...

Estou curioso em ver no que é que isto vai dar. O lobby dos médicos é muito forte, mas uma verdadeira democracia não se pode tornar refém de uma minoria - o que acontece mais vezes do que seria desejável.

Monday, November 12, 2007

Medo da minha opinião?

Já não é a primeira vez que isto me acontece: alguém me convida para alguma coisa - por exemplo uma ida ao cinema ou ao teatro. No fim, o "anfitrião" pergunta-me o que é que eu achei. Quando eu respondo que gostei noto um certo (grande) alívio na pessoa.

O que eu acho estranho nesta reacção é que o facto de notar alívio em vez de alegria - parece que a pessoa estava com medo do que eu pudesse dizer.

Ainda não percebi bem este mecanismo, e se bem que por um lado gosto de sentir que a minha opinião é valorizada pelas outras pessoas, por outro preocupa-me este medo da minha opinião.

Fico sempre a pensar na quantidade de situações em que as pessoas me evitam só para não a ouvir...

Ainda ninguém me soube explicar este fenómeno - mesmo as pessoas a quem pergunto quando noto que isto acontece dão-me respostas incompletas ou pouco esclarecedoras - fico sempre a pensar que temem o que posso vir a dizer se me disserem a verdade sobre este tema...

Wednesday, November 7, 2007

Crescer é...

...perceber que a vida é feita de opções. É perceber que por vezes é preciso decidir entre os desejos e os deveres - e saber quando escolher o quê. É tomar as rédeas do nosso destino, em vez nos deixarmos enredar por ele. É o glorioso direito da liberdade e o pesado dever da responsabilidade num só embrulho.
Crescer não é abandonar os sonhos ou a infantilidade - isso é envelhecer. Também não é deixar de correr riscos ou aceitar o mundo como é - isso é acomodar. Crescer é mudar o mundo enquanto deixamos que o mundo nos mude a nós, parar de viver num mundo de sonhos para passar a sonhar no mundo em que se vive.

Sobretudo, crescer é difícil. Tem dores de parto - só que é o parturiente que também nasce. Só não morre quem nunca nasceu - e quem nunca cresceu também nunca realmente viveu.

Quanto me custou a mim crescer na altura em que tive que o fazer... e a realidade é que não o trocaria por nada!

Thursday, November 1, 2007

Relembrando velhas pautas

Hoje apeteceu-me dar uma volta pelas velhas pautas.

A certa alturo passo por um estudo de Bach que toquei pela primeira vez há uns 15 anos. Já não devo tocá-lo há vários anos, mas depois de tocar lentamente os primeiros compassos apoiado na pauta, parece que tudo volta - as mãos começam a mexer-se sozinhas - como se estivessem a seguir um ritual complexo, já definitivamente entranhado nos meandros do cérebro. Agora já não é preciso pensar - basta sentir e ouvir o que as mãos têm para contar e cantar. É como se o eu do passado estivesse a falar comigo através destas pautas.

Ele fala-me da minha vida antiga - essa, que já passou e que não voltará mais. Lembra-me de conversas que tive, do dia em que comecei a tocar aquela música, do momento exacto em que comecei a conseguir tocá-la com prazer. Lembra-me da maneira como eu corri para casa para finalmente experimentar aquela outra, enquanto tocava baixo às 2h da manhã para não acordar a família ou os vizinhos. Que bons tempos eram!
Peço-lhe (-me?) para me falar das pessoas desses dias. Ele (eu?) conta-me das pessoas que se lembra, daquela pessoa que gostava muito que eu tocasse esta música, daquela outra que chegou a ouvir-me uma vez a tocar. Por vezes esse velho e jovem conhecido, ao ouvir certa música relembra-me de pessoas que saíram da minha vida ou que já abandonaram a delas - pessoas que já não devo voltar a ver fora destas conversas. Pessoas que estão bem fechadas no cofre da memória, e em cuja fechadura esta pauta entra como uma chave. Ele lembra-me então de conversas, acções, ideias trocadas, vidas vividas e passadas. Por vezes lembra-me de pequenos pormenores que só podem estar de alguma forma escritas no meio dos rabiscos negros no papel amarelecido, porque certamente que já não me poderia lembrar deles.

Fala-me das coisas boas e más, das coisas que tenho saudades e daquelas que não sinto a falta. Dos sonhos desfeitos e dos objectivos atingidos. Relembra-me os meus ideais da altura, dos meus valores, dos meus amigos e conhecidos. Das dores que passei, dos prazeres que vivi.

Enquanto me lembro de como era penso no que sou. (re)Avalio-me - tanto na técnica das mãos como na maneira de viver. Comparo-me comigo próprio - penso em mim com 25, 20, 15 anos, sentado num outro banco a tocar num outro piano e a viver uma outra vida - mas a tocar aquelas mesmas pautas, aquelas mesmas músicas. Como tudo mudou, e como tanta coisa permanece igual! Continuo a gostar imenso desta passagem - continuo a não conseguir tocar aquele compasso como deve de ser, ainda faço os mesmos erros - mas de maneira diferente. Continuo tímido, mas já menos notam. Ainda gosto de matemática, mas já aprendi a gostar do mundo das pessoas. Ainda sou uma pessoa diferente aos olhos dos outros, mas já vivo bem com isso. Já percebi que nunca vou poder ter tudo o que quero, mas ainda bem.


Quantas histórias eu leio nestas pautas. Quantas recordações escondidas nas entrelinhas, quantas mensagens escondidas no meio das notas. É impossível lembrar-me de tudo numa só noite, tal como é não consigo escrever tudo de uma só vez. Teria que viver a minha vida toda outra vez para ter tempo de conseguir tirar toda a informação que está dentro destas caixas poeirentas, para poder sentir de novo todas as emoções entranhadas.

Como é que será que lá cabe tanta coisa dentro?

Tuesday, October 30, 2007

Chumbos por faltas vão deixar de existir

Recentemente li uma notícia interessante (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308806).

Aparentemente o governo quer acabar com o chumbo por faltas - alunos que faltem demais passam a fazer provas especiais para poderem recuperar o ano.
A oposição atirou-se ás paredes porque para eles isto significa que a assiduidade não é premiada, e afirmando que existe uma desresponsabilização por parte do governo - sendo que para a oposição esta medida se destina apenas a camuflar o problema do abandono dos estudos.

Comecei por pensar: "quem é que ganha com esta nova situação?". Aparentemente, os alunos que faltam muito. E quem é que falta muito? bem, suponho que sejam ou os cábulas genuínos, ou aqueles que tiveram um azar qualquer (ficaram doentes, mudaram de casa a meio do ano escolar, etc.).
E quem é que perde com esta nova situação? No pior dos casos, perdem (em comparação) os alunos assíduos, que aparentemente não ganham nada face aos cábulas, que ganham o direito de faltar desde que prestem provas de que são capazes de passar.

(decidi deixar deliberadamente o governo e a oposição fora destas listas de perdedores/ganhadores, porque sinceramente não acho que as leis devam ser feitas a pensar no ganhos ou perdas dos partidos políticos).

Assim sendo, vejo-me numa situação em que na realidade há algumas pessoas (na realidade, as mais necessitadas de ajuda) que ganham muito e muitas pessoas que perdem muito pouco (na minha opinião não perdem mesmo nada - afinal, ganham o direito de não terem que fazer uma prova adicional). No processo até existem pessoas que faltam por razões legítimas (inocentes) e que ganham muito face ao estado actual. Eventualmente algumas pessoas acham que perdemos todos por questões ideológicas - que estamos a legitimizar o abandono escolar e a impedir a avaliação contínua de funcionar, mas não sou pessoa para pôr a ideologia à frente do pragmatismo.

Na minha óptica, a escola serve para um aluno aprender. Se pelo facto de ele faltar muito o obrigarmos a prestar provas adicionais - e ele mostrar que consegue passá-las, porque é que havemos de o prejudicar? Não me parece que um cábula com falta de vontade consiga passar uma prova depois de faltar o ano inteiro, mas um aluno necessitado que até estudou apesar de não estar na escola pode muito bem consegui-lo. Mais que isso, um cábula pode ao menos arrepender-se a meio e tentar emendar a mão a tempo.

Os amigos que ficam e os amigos que vão

Por vezes confronto-me com situações em que amigos meus - pessoas chegadas ou que foram importantes durante um período da minha vida - se começam a afastar. Normalmente isto acontece por razões naturais - as pessoas transformam-se, seguem caminhos diferentes, mudam de emprego, de casa ou de namorada.

Normalmente custa-me um bocado ver isto a acontecer. Hoje em dia habituei-me a ver isto como uma parte natural da vida, e aprendi a não lutar demasiado para o evitar.

Não quer isto dizer que não tente - normalmente, quando me começo a aperceber de que isto está a acontecer, tento reaproximar-me da pessoa - começo a convidá-la para mais eventos, a enviar mais mails, a tentar apanhá-la no messenger para conversar um pouco. Muitas vezes isto não é suficiente - e sobretudo se não houver um esforço idêntico do outro lado, acabo por desistir e deixar ir.Dependendo da pessoa e do tipo de relação, por vezes acabo por ficar com um amigo que vejo menos vezes - o que significa que me continuo a esforçar por manter um contacto mínimo, mas outras acabo por dar essa pessoa como perdida e desisto de vez.

Custa - sobretudo quando são pessoas a quem dou muito valor, ou por quem tento ainda durante muito tempo ou com muita força manter o contacto sem no entanto ver um esforço idêntico, mas hoje em dia acho que é importante ser capaz de perceber que por vezes é necessário - uma relação de amizade tem que fluir nas duas direcções e por vezes é melhor uma relação naturalmente adormecida do que uma artificialmente acordada.

Monday, October 22, 2007

A força da esperança (ou da auto-ilusão)

A ciência tem histórias que a própria ciência não consegue explicar.

Em 1977 foi lançada a primeira de duas sondas muito famosas (desde então já entraram em filmes, livros e jogos de computador) - as voyager.

Estas sondas destinavam-se sobretudo a estudar os gigantes gasosos do sistema solar. Após a passagem por estes planetas, as sondas supostamente deveriam continuar a sua trajéctoria até sairem do sistema solar - e continuar então a estudar o meio interestelar, onde se presume que não exista praticamente nada.

A particularidade mais interessante (pelo menos para mim) destas sondas não são os espectómetros de ultra-violeta, ou a tecnologia utilizada para as construir. A particularidade mais interessante e que diz mais sobre a espécie que as construíu é um pequeno disco de cobre revestido a ouro que cada uma destas sondas leva consigo.
Estes discos possuem vários sons terrestres - desde o som de pássaros, o som do mar, saudações em várias línguas e ainda música clássica - tudo para o caso de algum extraterrestre eventualmente encontrar a sonda no meio dos imensos anos-luz interestelares.

O que é interessante é: porque é que este disco foi posto numa sonda cuja missão é perder-se no meio do nada inter-estelar? É preciso dizer que cada grama que vai numa destas sondas é cuidadosamente analisada e sopesada, de forma a minimizar o peso e consequentemente a energia necessária para impulsionar a nave. Para qualquer cientista digno desse nome, este disco representa sobretudo um enorme desperdício de energia e recursos. Ainda por cima para transportar informação que ninguém sabe se o eventual extra-terrestre iria compreender (gostar?) - afinal, ele poderia estar mais numa onda de jazz...

Seja como for os discos foram nas duas sondas, o que me leva a perceber que muitas vezes não fazemos as coisas que devemos, mas as que queremos - e que muitas vezes interessa mais o tentar do que o conseguir.

É interessante pensar no que nós faríamos se encontrássemos uma sonda perdida no meio do espaço enviada por outra civilização. Será que precisaríamos de um disco de ouro com sons para ficarmos interessados na descoberta?
Por outro lado será que não preferiríamos a fórmula do campo unificado ou as coordenadas do paraíso?

Seja como for, parece que estes tempos da ciência romântica já passaram. Hoje em dia ninguém pagaria os dolares necessários para enviar nem um micro-chip com a enciclopédia britância inteira numa sonda...

Thursday, October 11, 2007

Envelhecer com a M80

Não sou um grande fã de radio - sou mais do género de gostar de controlar a música que ouço do que deixar outros escolherem-na por mim.

Existe no entanto uma radio que gosto particularmente de ouvir quando me farto dos CD's que trago no carro - a M80.Para quem não sabe (hereges!), a M80 passa exclusivamente música dos anos 70,80 e 90 - e apesar de não possuir locutores mega conhecidos, considero-os aceitáveis e mais ou menos "sintonizados" com o objectivo da radio.


Tendo em conta que: não me costumam doer as pernas nem as costas, tenho uma óptima visão, consigo fazer exercício físico violento durante bastante tempo sem me cansar demasiado - sinto-me normalmente enérgico e forte. Ideologicamente não me sinto ultrapassado ou sequer antiquado (apesar de sempre me ter considerado um "clássico").

No entanto, apesar de não me sentir velho fisicamente ou psicologicamente, quando descubro que ainda sei de cor a letra de uma música que esteve nos tops há 20 (ou 30!) anos atrás fico a pensar se isto não será o princípio do "ficar velho". De repente começo à procura de outros sinais:

- Realmente não gosto lá muito da música que se ouve hoje em dia...

- E o que dizer dos hábitos da juventude - nocivos e entediantes no mínimo, provavelmente mesmo perigosos e escandalosos!

- E em relação aos jogos de computador? Certamente já não se fazem como no "meu" tempo!

- A televisão é uma desgraça - só passam porcarias!

- Os jornais já não são o que eram - só passam mexericos e trivialidades. E o que dizer dos jornais que são distribuídos de graça? Uma modernice sem sentido!


É assim que começo a pensar que se calhar já começo a não fazer parte do "futuro". Começo a pensar que na melhor das hipóteses eu sou o "presente", um pouco a tender para o "passado"...