Antes de mais tenho que dizer que não gosto de casamentos (as minhas desculpas a eventuais leitores em cujos casamentos eu tenha estado).
As minhas objecções a este fenómeno sócio-religioso são sobretudo ideológicas, mas o lado prático também não ajuda (detesto ter que vestir fato e gravata para estar uma tarde inteira a comer sentado) - embora frequentemente aceite participar em casamentos por consideração por (pelo menos) um dos noivos.
Houve no entanto um casamento a que fui e que me impressionou (pela positiva) - no final cheguei a ter pena de ter acabado. Foi um casamento de extremo bom gosto e que chegou inclusive a comover-me - foi algo que me marcou. Tudo tinha sido escolhido e preparado com um cuidado e atenção que me fez pensar.
A meio desse casamento um dos amigos do noivo dedicou aos noivos um poema que me fascinou. O poeta chama-se Khalil Gibran - um libanês/americano que o escreveu por volta de 1920. Raramente senti as minhas ideias tão bem expostas por outra pessoa.
Este poema insere-se numa série de poemas (alguns deles muito bons) que ele escreveu chamados "o profeta" e que podem encontrar aqui: http://leb.net/gibran/works/prophet/prophet.html
Marriage
Then Almitra spoke again and said, "And what of Marriage, master?"
And he answered saying:
You were born together, and together you shall be forevermore.
You shall be together when white wings of death scatter your days.
Aye, you shall be together even in the silent memory of God.
But let there be spaces in your togetherness,
And let the winds of the heavens dance between you.
Love one another but make not a bond of love:
Let it rather be a moving sea between the shores of your souls.
Fill each other's cup but drink not from one cup.
Give one another of your bread but eat not from the same loaf.
Sing and dance together and be joyous, but let each one of you be alone,
Even as the strings of a lute are alone though they quiver with the same music.
Give your hearts, but not into each other's keeping.
For only the hand of Life can contain your hearts.
And stand together, yet not too near together:
For the pillars of the temple stand apart,
And the oak tree and the cypress grow not in each other's shadow.
Wednesday, September 19, 2007
Tuesday, September 18, 2007
Thursday, September 13, 2007
Um torneio diferente
Certa vez, depois de um jogo de ténis de mesa, dei boleia a um dos meus adversários.
É um homem já nos seus 60, um pouco falador demais (penso que muita a gente no meio o vê como um pouco chato). Parece mais velho - as mãos tremem-lhe, gagueja um pouco e fala com a boca à banda, ao estilo de quem já sobreviveu a uma valente trombose.
Surpreendentemente o estilo de jogo dele é jovem - joga ao ataque, num estilo de jogo aberto, enérgico e fisicamente exigente. As hesitações que se notam na fala não transparecem durante o jogo - parece que se transfigura.
Assim que acaba o jogo, a cara volta a ficar esmorecida, os ombros rebaixam-se e ele diz-me: "tu-tu-tuuuuu ga-ganhaste-me, mmmmaaasss podias ter-ter-ter-ter jogado melhor!", ao que ele começa a explicar-me os meus erros (com alguma perspicácia, há-que o dizer).
Simpatizo com ele desde que o vi pela primeira vez, há uns dois anos.
Quando o estou a deixar à porta de casa, ele convida-me para um torneio no dia seguinte. É um torneio no clube do bairro dele, onde segundo ele iriam vários jogadores ao nosso nível - e sobretudo o filho dele, por quem é evidente que ele nutre um orgulho que ultrapassa o meramente paternal para atingir a quase idolatria.
Decido aceitar.
No dia seguinte chego cedo. O clube acaba por ser nas traseiras de uma tasca no meio da tapada da ajuda. No salão de baile carregado de fitas e outros adereços festivos - e onde estão (temporariamente) as duas mesas de jogo, encontra-se também um velhote orgulhosamente desdentado, que me sorri e pergunta o nome para ele conferir na curta lista de jogadores. No ar ressoa música pimba em altos berros - começo a perceber que o torneio não é bem o que eu esperava...
Entretanto chega o meu anfitrião - vem chateado porque alguns dos jogadores que ele ansiava para garantir um bom nível afinal não vêm. Não sei porquê, acho que é comum acontecer-lhe estas desistências de última hora...
Os outros adversários começam a chegar - alguns miúdos, e dois velhotes - um deles com boné de pala e tudo, que nunca chegou a tirar. Também chega um homem que é tratado como o "presidente", acompanhado por uma mulher que parecia ir vestida para uma festa. Percebo então que o torneio é o torneio inaugural daquele espaço, fazendo parte das festividades. O presidente é o presidente da junta de freguesia, que foi participar na festa. Quando o meu anfitrião me pede para usar o uniforme da equipa da casa percebo que é uma festa particular e sinto-me a mais, mas decido ser camarada e fazer a minha parte para ajudar à festa.
Entretanto já chegou o filho pródigo. Afinal até já o conheço de vista de alguns torneios - é um jogador bastante acima do meu nível (ou do pai dele), que no entanto tem um ar de quem tem um problema com o nariz, e que tem sempre que o manter virado para cima senão ainda cai - o que o obriga a olhar para os outros de cima para baixo e à distância. Ele também parece ficar um bocado desconcertado com o torneio - provavelmente veio tão enganado como eu.
Ele começa a falar comigo e finalmente faz a pergunta que o incomoda:
"O que é que estás a fazer aqui?",
mas que na realidade soou mais a:
"Eu tenho que vir a estas estopadas porque ele é o meu pai, mas porque é que raio tu estás aqui a aturar isto?"
A atitude dele incomoda-me um bocado, e começo a temer (justificadamente, como vim a comprovar) pelo pai dele.
Entretanto começa o torneio. Calha-me jogar contra os dois velhotes - um deles jogou sempre com o telemóvel no cinto das calças, o outro nunca tirou o seu boné. Ainda consigo divertir-me bastante - acho muita piada a esta componente social do ténis de mesa e não me incomoda nada jogar contra pessoas francamente mais fracas que eu.
A certa altura chega o jogo que eu temia: pai contra filho.
É com muita tristeza que vejo o filho, na altivez do seu nariz empinado e franzido de quem se acha superior a um torneio daqueles a deixar o pai ganhar de uma forma demasiado evidente. O velhote (que não é parvo) fica bastante desgostado no final - o outro nem sequer tentou dar-lhe luta, e a vitória saíu-lhe imerecida. Penso ler na cara do pai a luta entre dois pensamentos antagónicos:
- ou o filho afinal não joga assim tão bem como ele sempre idealizou
- ou o filho está a fazer um frete e não quer estar ali a jogar com o pai~
Entretanto ele vem ter comigo a desculpar o filho dele - "não está num bom dia". Entristece-me pensar quantas vezes é que o filho fará um esforço por estar num bom dia de forma a poder melhorar o dia do pai. Fiquei sinceramente triste por ver este pai que partilha o hobby do filho a ver negado o prazer de o praticar em família com o jogador que mais admira. Achei uma falta de respeito tal que tive vontade de gritar com este filho de coração empedernido, que não mostra o mínimo sinal de se arrepender perante o ar triste do pai.
Quando este jogo acaba fico a pensar no jogo seguinte. É a final entre mim e o pai amargurado, e eu não sei o que fazer. Se jogar para ganhar, provavelmente ganho - mas não quero ficar com a taça daquela festa que não me pertence. Se jogar para perder, corro o risco de tornar ainda mais amarga a vitória do pai.
Decido então jogar para o espectáculo, com movimentos mais difíceis, amplos e rápidos - mas bastante menos eficientes. Penso que deve ser o suficiente para me garantir uma derrota bonita, ao mesmo tempo que agrada ao escasso público e é mais condizente com o espírito de festa (supostamente) reinante.
É um estilo de jogo que me dá particular prazer jogar, e até encaixa bem no estilo energético do meu adversário pelo que consigo manter uma actuação muito convicente, e perder por uma unha negra sem nunca realmente ter que fazer por perder - apenas fiz uma má opção táctica, o que é bastante mais convicente.
No final todos saem a ganhar - o meu adversário que ganhou um belo jogo, o público que ficou satisfeito com um jogo bonito e mexido - à altura de uma final, e eu que me posso deixar afundar num honroso e de certa forma relativamente obscuro segundo lugar.
A minha única fonte de tristeza no final foi pensar que aquele filho ingrato não deve ter sequer percebido a diferença entre a vitória do meu adversário e a do pai dele. Também não sou eu quem lhe vai ensinar - afinal, um bom pai teve ele e não me parece que lhe tenha dado muita atenção...
É um homem já nos seus 60, um pouco falador demais (penso que muita a gente no meio o vê como um pouco chato). Parece mais velho - as mãos tremem-lhe, gagueja um pouco e fala com a boca à banda, ao estilo de quem já sobreviveu a uma valente trombose.
Surpreendentemente o estilo de jogo dele é jovem - joga ao ataque, num estilo de jogo aberto, enérgico e fisicamente exigente. As hesitações que se notam na fala não transparecem durante o jogo - parece que se transfigura.
Assim que acaba o jogo, a cara volta a ficar esmorecida, os ombros rebaixam-se e ele diz-me: "tu-tu-tuuuuu ga-ganhaste-me, mmmmaaasss podias ter-ter-ter-ter jogado melhor!", ao que ele começa a explicar-me os meus erros (com alguma perspicácia, há-que o dizer).
Simpatizo com ele desde que o vi pela primeira vez, há uns dois anos.
Quando o estou a deixar à porta de casa, ele convida-me para um torneio no dia seguinte. É um torneio no clube do bairro dele, onde segundo ele iriam vários jogadores ao nosso nível - e sobretudo o filho dele, por quem é evidente que ele nutre um orgulho que ultrapassa o meramente paternal para atingir a quase idolatria.
Decido aceitar.
No dia seguinte chego cedo. O clube acaba por ser nas traseiras de uma tasca no meio da tapada da ajuda. No salão de baile carregado de fitas e outros adereços festivos - e onde estão (temporariamente) as duas mesas de jogo, encontra-se também um velhote orgulhosamente desdentado, que me sorri e pergunta o nome para ele conferir na curta lista de jogadores. No ar ressoa música pimba em altos berros - começo a perceber que o torneio não é bem o que eu esperava...
Entretanto chega o meu anfitrião - vem chateado porque alguns dos jogadores que ele ansiava para garantir um bom nível afinal não vêm. Não sei porquê, acho que é comum acontecer-lhe estas desistências de última hora...
Os outros adversários começam a chegar - alguns miúdos, e dois velhotes - um deles com boné de pala e tudo, que nunca chegou a tirar. Também chega um homem que é tratado como o "presidente", acompanhado por uma mulher que parecia ir vestida para uma festa. Percebo então que o torneio é o torneio inaugural daquele espaço, fazendo parte das festividades. O presidente é o presidente da junta de freguesia, que foi participar na festa. Quando o meu anfitrião me pede para usar o uniforme da equipa da casa percebo que é uma festa particular e sinto-me a mais, mas decido ser camarada e fazer a minha parte para ajudar à festa.
Entretanto já chegou o filho pródigo. Afinal até já o conheço de vista de alguns torneios - é um jogador bastante acima do meu nível (ou do pai dele), que no entanto tem um ar de quem tem um problema com o nariz, e que tem sempre que o manter virado para cima senão ainda cai - o que o obriga a olhar para os outros de cima para baixo e à distância. Ele também parece ficar um bocado desconcertado com o torneio - provavelmente veio tão enganado como eu.
Ele começa a falar comigo e finalmente faz a pergunta que o incomoda:
"O que é que estás a fazer aqui?",
mas que na realidade soou mais a:
"Eu tenho que vir a estas estopadas porque ele é o meu pai, mas porque é que raio tu estás aqui a aturar isto?"
A atitude dele incomoda-me um bocado, e começo a temer (justificadamente, como vim a comprovar) pelo pai dele.
Entretanto começa o torneio. Calha-me jogar contra os dois velhotes - um deles jogou sempre com o telemóvel no cinto das calças, o outro nunca tirou o seu boné. Ainda consigo divertir-me bastante - acho muita piada a esta componente social do ténis de mesa e não me incomoda nada jogar contra pessoas francamente mais fracas que eu.
A certa altura chega o jogo que eu temia: pai contra filho.
É com muita tristeza que vejo o filho, na altivez do seu nariz empinado e franzido de quem se acha superior a um torneio daqueles a deixar o pai ganhar de uma forma demasiado evidente. O velhote (que não é parvo) fica bastante desgostado no final - o outro nem sequer tentou dar-lhe luta, e a vitória saíu-lhe imerecida. Penso ler na cara do pai a luta entre dois pensamentos antagónicos:
- ou o filho afinal não joga assim tão bem como ele sempre idealizou
- ou o filho está a fazer um frete e não quer estar ali a jogar com o pai~
Entretanto ele vem ter comigo a desculpar o filho dele - "não está num bom dia". Entristece-me pensar quantas vezes é que o filho fará um esforço por estar num bom dia de forma a poder melhorar o dia do pai. Fiquei sinceramente triste por ver este pai que partilha o hobby do filho a ver negado o prazer de o praticar em família com o jogador que mais admira. Achei uma falta de respeito tal que tive vontade de gritar com este filho de coração empedernido, que não mostra o mínimo sinal de se arrepender perante o ar triste do pai.
Quando este jogo acaba fico a pensar no jogo seguinte. É a final entre mim e o pai amargurado, e eu não sei o que fazer. Se jogar para ganhar, provavelmente ganho - mas não quero ficar com a taça daquela festa que não me pertence. Se jogar para perder, corro o risco de tornar ainda mais amarga a vitória do pai.
Decido então jogar para o espectáculo, com movimentos mais difíceis, amplos e rápidos - mas bastante menos eficientes. Penso que deve ser o suficiente para me garantir uma derrota bonita, ao mesmo tempo que agrada ao escasso público e é mais condizente com o espírito de festa (supostamente) reinante.
É um estilo de jogo que me dá particular prazer jogar, e até encaixa bem no estilo energético do meu adversário pelo que consigo manter uma actuação muito convicente, e perder por uma unha negra sem nunca realmente ter que fazer por perder - apenas fiz uma má opção táctica, o que é bastante mais convicente.
No final todos saem a ganhar - o meu adversário que ganhou um belo jogo, o público que ficou satisfeito com um jogo bonito e mexido - à altura de uma final, e eu que me posso deixar afundar num honroso e de certa forma relativamente obscuro segundo lugar.
A minha única fonte de tristeza no final foi pensar que aquele filho ingrato não deve ter sequer percebido a diferença entre a vitória do meu adversário e a do pai dele. Também não sou eu quem lhe vai ensinar - afinal, um bom pai teve ele e não me parece que lhe tenha dado muita atenção...
Tuesday, August 21, 2007
Viagens - bebendo água em buddanath
O calor aperta enquanto subo os degraus de buddanath.
Enquanto caminho vou-me maravilhando com os grandes budas que sorriem a dar-me as boas vindas (na minha opinião uma postura pouco condizente com a filosofia budista).
Confesso que não faço ideia sobre onde estou - limitei-me a seguir os meus companheiros de viagem que conheci ontem e que parecem saber bem o que querem ver.
De repente somos abordados por um rapaz. Num inglês perfeito - mais próprio de um londrino do que de um rapaz de uns 15 anos que mora em Katmandu - ele oferece-se para nos guiar pelo templo. Nós olhamos uns para outros, intimidados pela situação e em busca do sentimento de grupo.
Acabamos por decidir aceitar quando ele nos diz que não temos que lhe pagar nada - no final decidimos se lhe damos alguma coisa ou não.Durante um bom bocado ele guia-nos pelo templo, explicando-nos numa voz alegre (uma alegria simultaneamente infantil e solene) - e sempre num inglês espantosamento perfeito - o significado das bandeiras, das rodas de oração e de todos os estranhos adereços que populam este local de culto budista.
Entre uma efeméride e uma história, consigo fazer-lhe algumas perguntas. Ele trabalha nas férias da escola para ajudar os pais - passa o verão ali, a entreter turistas. Afirma ter sonhos de vir para a faculdade - mas não consigo perceber se ele o diz para me satisfazer a mim, a ele ou aos seus pais. Enquanto bebo água da minha garrafa noto que ele parece estar com sede. Ofereço-lhe a minha água, que ele recusa prontamente. Eu insisto e é então que tenho oportunidade de presenciar algo que me vai fazer lembrar deste passeio mesmo daqui a 4 anos, quando escrever este texto. Nessa altura posso não me lembrar muito bem deste sítio, posso nem saber muito bem se realmente se chamava buddanath ou se tinha qualquer outro nome. Posso já ter-me esquecido de algumas das maravilhas e exotismos que me rodeiam - mas certamente que me vou lembrar da forma como este rapaz de 15 anos de tez escura e com um inglês perfeito, que não pode jogar à bola nas férias para poder ganhar dinheiro para dar aos pais e que provavelmente nunca saíu para muito longe de Katmandu me dá uma lição sobre educação e respeito ali no meio daquele calor e daquelas escadas cansativas:
É com muda reverência que o vejo pegar cuidadosamente na minha garrafa com as duas mãos, e com muito cuidado - de forma a não entornar nem uma gota da água que não lhe pertence - ele segura a garrafa com o gargalo alguns centímetros acima da boca dele e despeja uma quantidade mínima de água sem nunca tocar na garrafa com os lábios.
É um gesto feito com uma tal simplicidade, cuidado e respeito que me há-de impressionar durante muito tempo...
Enquanto caminho vou-me maravilhando com os grandes budas que sorriem a dar-me as boas vindas (na minha opinião uma postura pouco condizente com a filosofia budista).
Confesso que não faço ideia sobre onde estou - limitei-me a seguir os meus companheiros de viagem que conheci ontem e que parecem saber bem o que querem ver.
De repente somos abordados por um rapaz. Num inglês perfeito - mais próprio de um londrino do que de um rapaz de uns 15 anos que mora em Katmandu - ele oferece-se para nos guiar pelo templo. Nós olhamos uns para outros, intimidados pela situação e em busca do sentimento de grupo.
Acabamos por decidir aceitar quando ele nos diz que não temos que lhe pagar nada - no final decidimos se lhe damos alguma coisa ou não.Durante um bom bocado ele guia-nos pelo templo, explicando-nos numa voz alegre (uma alegria simultaneamente infantil e solene) - e sempre num inglês espantosamento perfeito - o significado das bandeiras, das rodas de oração e de todos os estranhos adereços que populam este local de culto budista.
Entre uma efeméride e uma história, consigo fazer-lhe algumas perguntas. Ele trabalha nas férias da escola para ajudar os pais - passa o verão ali, a entreter turistas. Afirma ter sonhos de vir para a faculdade - mas não consigo perceber se ele o diz para me satisfazer a mim, a ele ou aos seus pais. Enquanto bebo água da minha garrafa noto que ele parece estar com sede. Ofereço-lhe a minha água, que ele recusa prontamente. Eu insisto e é então que tenho oportunidade de presenciar algo que me vai fazer lembrar deste passeio mesmo daqui a 4 anos, quando escrever este texto. Nessa altura posso não me lembrar muito bem deste sítio, posso nem saber muito bem se realmente se chamava buddanath ou se tinha qualquer outro nome. Posso já ter-me esquecido de algumas das maravilhas e exotismos que me rodeiam - mas certamente que me vou lembrar da forma como este rapaz de 15 anos de tez escura e com um inglês perfeito, que não pode jogar à bola nas férias para poder ganhar dinheiro para dar aos pais e que provavelmente nunca saíu para muito longe de Katmandu me dá uma lição sobre educação e respeito ali no meio daquele calor e daquelas escadas cansativas:
É com muda reverência que o vejo pegar cuidadosamente na minha garrafa com as duas mãos, e com muito cuidado - de forma a não entornar nem uma gota da água que não lhe pertence - ele segura a garrafa com o gargalo alguns centímetros acima da boca dele e despeja uma quantidade mínima de água sem nunca tocar na garrafa com os lábios.
É um gesto feito com uma tal simplicidade, cuidado e respeito que me há-de impressionar durante muito tempo...
Wednesday, August 8, 2007
God Delusion - a influência das orações
De vez em quando leio um livro que acho que vale mesmo a pena ler. Isto aconteceu-me recentemente com o "God Delusion" de Richard Dawkins.
Apesar de ainda estar a meio, já percebi que vai ser um livro que provavelmente vou gostar de ler até ao fim. Está escrito de uma forma muito engraçada (a roçar o sarcástico).
O livro é uma espécie de manifesto anti-Deus (Dawkins é um ateu convicto), escrito por um biólogo que influenciou bastante o trabalho recente sobre evolução - um seguidor convicto de Darwin.
É um livro um pouco forte - a roçar o agressivo - mas tem alguns pontos muito interessantes.
Uma das histórias mais interessantes do livro tem como raiz este estudo: http://www.mowatresearch.co.uk/uploaded_documents/Benson.pdf
Acontece que em 1997 decidiu-se conduzir um estudo sério sobre a influência da oração sobre a recuperação de doentes. Este estudo foi comparticipado pela Templeton Foundation (http://en.wikipedia.org/wiki/John_Templeton_Foundation), uma fundação que Dawkins acusa de estar intimamente ligada a movimentos cristãos (e daí ele ainda achar mais delicioso o resultado).
O nosso bom doutor Benson decidiu pegar numa em cerca de 2000 doentes cardíacos a recuperar de intervenções cirúrgicas e dividi-los em três grupos:
- O primeiro não iria receber qualquer tipo de oração adicional
- O segundo iria receber orações em seu favor, "oferecidas" por parte de um grupo de fieis de várias paróquias que iam assim participar no estudo. Este grupo de doentes não saberia que estavam a rezar por eles
- O terceiro grupo iria receber orações em seu favor, mas seriam informados que isto ia acontecer.
Este estudo decorreu durante vários anos e no final comparou-se os resultados. Aparentemente não existia qualquer diferença estatística entre a taxa de recuperação dos dois primeiros grupos.
Curiosamente, o terceiro grupo demonstrou uma taxa de recuperação um pouco inferior. Segundo Dawkins isto deveu-se a uma reacção por parte dos doentes do tipo:
"o quê? Já tiveram que chamar a equipa das rezas? Devo estar meeeeeesmo lixado..."
As reacções foram várias (um bom artigo sobre pode ser encontrado aqui: http://www.nytimes.com/2006/04/11/opinion/11lawrence.html?ex=1186718400&en=d7ec9d9a551102b2&ei=5070). Não me vou pronunciar (pelo menos para já) sobre o que acho sobre este estudo, sobre as rezas ou sobre as conclusões - mas não deixa de ser um estudo (e um resultado) curioso.
Apesar de ainda estar a meio, já percebi que vai ser um livro que provavelmente vou gostar de ler até ao fim. Está escrito de uma forma muito engraçada (a roçar o sarcástico).
O livro é uma espécie de manifesto anti-Deus (Dawkins é um ateu convicto), escrito por um biólogo que influenciou bastante o trabalho recente sobre evolução - um seguidor convicto de Darwin.
É um livro um pouco forte - a roçar o agressivo - mas tem alguns pontos muito interessantes.
Uma das histórias mais interessantes do livro tem como raiz este estudo: http://www.mowatresearch.co.uk/uploaded_documents/Benson.pdf
Acontece que em 1997 decidiu-se conduzir um estudo sério sobre a influência da oração sobre a recuperação de doentes. Este estudo foi comparticipado pela Templeton Foundation (http://en.wikipedia.org/wiki/John_Templeton_Foundation), uma fundação que Dawkins acusa de estar intimamente ligada a movimentos cristãos (e daí ele ainda achar mais delicioso o resultado).
O nosso bom doutor Benson decidiu pegar numa em cerca de 2000 doentes cardíacos a recuperar de intervenções cirúrgicas e dividi-los em três grupos:
- O primeiro não iria receber qualquer tipo de oração adicional
- O segundo iria receber orações em seu favor, "oferecidas" por parte de um grupo de fieis de várias paróquias que iam assim participar no estudo. Este grupo de doentes não saberia que estavam a rezar por eles
- O terceiro grupo iria receber orações em seu favor, mas seriam informados que isto ia acontecer.
Este estudo decorreu durante vários anos e no final comparou-se os resultados. Aparentemente não existia qualquer diferença estatística entre a taxa de recuperação dos dois primeiros grupos.
Curiosamente, o terceiro grupo demonstrou uma taxa de recuperação um pouco inferior. Segundo Dawkins isto deveu-se a uma reacção por parte dos doentes do tipo:
"o quê? Já tiveram que chamar a equipa das rezas? Devo estar meeeeeesmo lixado..."
As reacções foram várias (um bom artigo sobre pode ser encontrado aqui: http://www.nytimes.com/2006/04/11/opinion/11lawrence.html?ex=1186718400&en=d7ec9d9a551102b2&ei=5070). Não me vou pronunciar (pelo menos para já) sobre o que acho sobre este estudo, sobre as rezas ou sobre as conclusões - mas não deixa de ser um estudo (e um resultado) curioso.
Tuesday, July 10, 2007
«Eles» não me levam nem um tostão a mais
Este é um discurso que costumo ouvir com alguma regularidade. «eles» são obviamente o estado português e normalmente estes comentários surgem de uma forma inflamada em conversas relacionadas com impostos.
Bem, tenho que dizer que acho muito curioso o facto de que eu é que sou o libertário que defende uma menor intervenção estatal e que não liga muito às noções de pátria ou de bandeira, mas normalmente são pessoas mais conservadoras e defensoras do status quo que acham que o pronome adequado para o estado é a terceira pessoa do plural em vez da primeira.
Na minha opinião o que se passa é que as pessoas não gostam de pagar impostos. Normalmente a razão apresentada é o facto de que os impostos são frequentemente mal gastos e que existem coisas que funcionam muito mal no sistema - nunca percebi como é que a partir deste argumento se chega à conclusão que não se deve pagar, mas deve ser algum tipo de limitação minha.
Um argumento um pouco mais fácil de entender é o facto de que existe injustiça fiscal e portanto "eu não pago se os outros não pagam" - o que equivale a: se existem parasitas, então eu também quero ser um! (normalmente as pessoas não reagem muito bem quando lhes refraseio o argumento desta forma)
Por exemplo a seguinte frase:
"O estado gasta mal o dinheiro do estado"
Normalmente ouço-a enunciada da seguinte forma:
"«eles» gastam mal o «nosso» dinheiro"
Raramente ouço:
"«eles» gastam mal o dinheiro «deles»"
e é mesmo MUITO raro ouvir:
"«nós» gastamos mal o «nosso» dinheiro"
(O mais perto que que já ouvi foram políticos da oposição a dizer "«nós» gastamos mal o «vosso» dinheiro", em que este «nós» quer na realidade dizer «eles»)
Ainda pior que isso, a prática de considerar o estado como um «eles» chupista que não merece nada tornou-se tanto um lugar comum que hoje em dia muitas pessoas pensam que sou um maluquinho só porque decidi pagar os impostos sobre as obras da minha casa. Quando digo que pedi uma factura que me vai custar alguns milhares de euros acham que eu sou rico ou que não regulo bem - e mesmo depois de eu explicar as razões que me levaram a fazê-lo, raramente as pessoas mudam a sua forma de pensar (embora já tenha acontecido).
"O povo tem os políticos que merece"
Bem, tenho que dizer que acho muito curioso o facto de que eu é que sou o libertário que defende uma menor intervenção estatal e que não liga muito às noções de pátria ou de bandeira, mas normalmente são pessoas mais conservadoras e defensoras do status quo que acham que o pronome adequado para o estado é a terceira pessoa do plural em vez da primeira.
Na minha opinião o que se passa é que as pessoas não gostam de pagar impostos. Normalmente a razão apresentada é o facto de que os impostos são frequentemente mal gastos e que existem coisas que funcionam muito mal no sistema - nunca percebi como é que a partir deste argumento se chega à conclusão que não se deve pagar, mas deve ser algum tipo de limitação minha.
Um argumento um pouco mais fácil de entender é o facto de que existe injustiça fiscal e portanto "eu não pago se os outros não pagam" - o que equivale a: se existem parasitas, então eu também quero ser um! (normalmente as pessoas não reagem muito bem quando lhes refraseio o argumento desta forma)
Por exemplo a seguinte frase:
"O estado gasta mal o dinheiro do estado"
Normalmente ouço-a enunciada da seguinte forma:
"«eles» gastam mal o «nosso» dinheiro"
Raramente ouço:
"«eles» gastam mal o dinheiro «deles»"
e é mesmo MUITO raro ouvir:
"«nós» gastamos mal o «nosso» dinheiro"
(O mais perto que que já ouvi foram políticos da oposição a dizer "«nós» gastamos mal o «vosso» dinheiro", em que este «nós» quer na realidade dizer «eles»)
Ainda pior que isso, a prática de considerar o estado como um «eles» chupista que não merece nada tornou-se tanto um lugar comum que hoje em dia muitas pessoas pensam que sou um maluquinho só porque decidi pagar os impostos sobre as obras da minha casa. Quando digo que pedi uma factura que me vai custar alguns milhares de euros acham que eu sou rico ou que não regulo bem - e mesmo depois de eu explicar as razões que me levaram a fazê-lo, raramente as pessoas mudam a sua forma de pensar (embora já tenha acontecido).
"O povo tem os políticos que merece"
Viagens: "tomem lá a chave, volto dentro de uma hora"
Após dois ou três dias de viagem pelo Alasca eu e o meu companheiro de viagem estávamos com um certo.... mau aspecto. Tínhamos passado as últimas duas noites a dormir em parques de campismo à chuva, em terrenos alagados e enlameados, sem sítio para tomar banho. O nosso carro alugado não era propriamente um portento e tinha o mesmo mau aspecto que nós.
Eis que chegamos a uma pequena povoação chamada Homer - um sítio muito bonito rodeado por água, montanhas e verde (bem - esta seria uma boa descrição para quase todo o alasca) - e começamos à procura de um sítio para ficar.
Depois de procurar um pouco chegamos a uma vivenda um pouco isolada - já fora da povoação. Era uma vivenda muito bem arranjada situada na encosta do monte - um sítio com uma vista privilegiada sobre a área circundante.Batemos à porta com algum receio da recepção que duas pessoas com o nosso aspecto teriam num sítio como aqueles. Eu só pensava que se fosse na Europa e aquela casa fosse minha, provavelmente nem sequer abriria a porta.
A senhora que nos abriu a porta mandou-nos logo entrar para vermos o quarto que ela tinha para alugar. Era um quarto muito bem arranjado (num estilo um pouco exagerado e infantil, na minha opinião) - via-se que tinha pertencido ao filho(a) que entretanto tinha saído de casa, e que ela tinha transformado o quarto de forma a poder receber hóspedes.Eu estava a sentir-me mal só de me sentir tão sujo numa casa tão imaculada e tratada com tanto cuidado, mas o verdadeiro choque ainda estava para vir.
Ela levou-nos ao segundo andar onde ficava uma grande sala. Haviam umas portas de vidro na parede que dava para a varanda e que davam uma vista fabulosa. Toda a sala estava cuidadosamente decorada com todos os confortos modernos - não havia dúvida que aquela pessoa morava ali.
Perguntou-nos se queríamos ficar naquela noite, ao que respondemos logo que sim. Eis que então ela se vira e diz: "óptimo, tomem lá a chave de casa. Eu tenho que ir buscar a minha mãe à estação de comboio e volto daqui a uma hora. Se precisarem de alguma coisa sirvam-se, se quiserem liguem a televisão, as toalhas para o banho estão acolá, etc. - e foi assim que ficámos sozinhos numa casa de uma pessoa que não conhecíamos, com a chave de toda a casa e o nosso carro parado à porta. Ela nem sequer nos pediu os passaportes!
No dia seguinte ao pequeno almoço tive mesmo que perguntar se aquele comportamento era normal, ou se ela era simplesmente "diferente". Durante a conversa pareceu-me realmente diferente em relação ao que estava à espera de ver nos estados unidos - uma idealista de esquerda que até já tinha participado em manifestações anti-bush. Durante a conversa (o que vim a confirmar durante a viagem) descobri que existia muita gente assim por aqueles lados - uma espécie de libertários ultra-ecologistas, habituados a viver numa grande comunidade do tamanho de um continente - um choque para quem estava à espera de encontrar eremitas a correr atrás dos ursos com uma espingarda na mão.
E em portugal há pessoas que acham que eu sou estranho por não trancar a porta da rua à noite antes de me ir deitar - viajar é aprender...
Eis que chegamos a uma pequena povoação chamada Homer - um sítio muito bonito rodeado por água, montanhas e verde (bem - esta seria uma boa descrição para quase todo o alasca) - e começamos à procura de um sítio para ficar.
Depois de procurar um pouco chegamos a uma vivenda um pouco isolada - já fora da povoação. Era uma vivenda muito bem arranjada situada na encosta do monte - um sítio com uma vista privilegiada sobre a área circundante.Batemos à porta com algum receio da recepção que duas pessoas com o nosso aspecto teriam num sítio como aqueles. Eu só pensava que se fosse na Europa e aquela casa fosse minha, provavelmente nem sequer abriria a porta.
A senhora que nos abriu a porta mandou-nos logo entrar para vermos o quarto que ela tinha para alugar. Era um quarto muito bem arranjado (num estilo um pouco exagerado e infantil, na minha opinião) - via-se que tinha pertencido ao filho(a) que entretanto tinha saído de casa, e que ela tinha transformado o quarto de forma a poder receber hóspedes.Eu estava a sentir-me mal só de me sentir tão sujo numa casa tão imaculada e tratada com tanto cuidado, mas o verdadeiro choque ainda estava para vir.
Ela levou-nos ao segundo andar onde ficava uma grande sala. Haviam umas portas de vidro na parede que dava para a varanda e que davam uma vista fabulosa. Toda a sala estava cuidadosamente decorada com todos os confortos modernos - não havia dúvida que aquela pessoa morava ali.
Perguntou-nos se queríamos ficar naquela noite, ao que respondemos logo que sim. Eis que então ela se vira e diz: "óptimo, tomem lá a chave de casa. Eu tenho que ir buscar a minha mãe à estação de comboio e volto daqui a uma hora. Se precisarem de alguma coisa sirvam-se, se quiserem liguem a televisão, as toalhas para o banho estão acolá, etc. - e foi assim que ficámos sozinhos numa casa de uma pessoa que não conhecíamos, com a chave de toda a casa e o nosso carro parado à porta. Ela nem sequer nos pediu os passaportes!
No dia seguinte ao pequeno almoço tive mesmo que perguntar se aquele comportamento era normal, ou se ela era simplesmente "diferente". Durante a conversa pareceu-me realmente diferente em relação ao que estava à espera de ver nos estados unidos - uma idealista de esquerda que até já tinha participado em manifestações anti-bush. Durante a conversa (o que vim a confirmar durante a viagem) descobri que existia muita gente assim por aqueles lados - uma espécie de libertários ultra-ecologistas, habituados a viver numa grande comunidade do tamanho de um continente - um choque para quem estava à espera de encontrar eremitas a correr atrás dos ursos com uma espingarda na mão.
E em portugal há pessoas que acham que eu sou estranho por não trancar a porta da rua à noite antes de me ir deitar - viajar é aprender...
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